Cadeia coureiro-calçadista responde por 6% das inovações no setor de transformação

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Em 2017, o índice de participação da indústria de manufaturas no PIB brasileiro atingiu seu pior patamar desde a década de 50, recuando para 11,8%. Em recente evento promovido pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), o pós-Doutor em Economia e professor do Departamento de Relações Internacionais da UFRGS, André Cunha ressaltou que o Brasil vem passando por um processo de desindustrialização, acentuada desde a década de 1980 – quando a participação da manufatura no PIB nacional chegou a 20% –, com o aumento da dependência das commodities e a regulação internacional de preços desses produtos. Segundo o consultor da Abicalçados, Alexandre Peteffi, um dos fatores relevantes para o quadro, além do chamado Custo Brasil, que inibe investimentos, é o baixo grau de inovação no segmento. Confira a entrevista com o especialista:

Abicalçados – Conforme estudo da Inteligência de Mercado da Abicalçados, a cadeia responde por apenas 6% dos investimentos em inovação na Indústria de Transformação. É um dos mais baixos, em um ambiente já de baixo nível de aportes. Por que isso acontece?
Alexandre Peteffi –
Trazendo outro dado, a CNI realizou uma pesquisa, em 2016, que colocou o setor calçadista como um dos cinco piores em grau de utilização de tecnologias digitais no processo produtivo no País. Pela pesquisa, somente 29% das indústrias pesquisadas, adotava alguma dessas tecnologias, condição fundamental para avançarmos em direção da indústria 4.0. Agora respondendo por quê isso acontece, são diversos os fatores. Em primeiro lugar, ainda muitas empresas do setor não entendem a necessidade, ou não enxergam as oportunidades, da agregação de novas tecnologias aos seus produtos e processos. Seguem entregando mais do mesmo. Faz parte de uma cultura que precisamos mudar. É preciso agregar valor por meio da inovação e de novas soluções criativas. A maior parte das empresas que inovam no Brasil ainda são muito dependentes da figura personalizada do empresário empreendedor e inovador. Precisamos ir além dessa figura, precisamos criar uma cultura de inovação, que permeie todos os setores e processos das empresas.

Abicalçados – Existe uma disparidade muito grande entre o grau de inovação brasileiro e de países desenvolvidos. Por quê?
Peteffi –
Além da questão cultural, o Brasil é o país das incertezas, o que acaba inibindo investimento, especialmente quando se trata de inovação. A inovação, por natureza, é um investimento de risco, que o empresário não está disposto a fazer em um quadro que muda a todo momento. A situação é ainda mais grave em setores mais tradicionais da indústria, caso do calçadista, ainda muito resistente, especialmente, à colaboração externa que favorece um ambiente de cocriação, não somente entre empresas, mas também em conjunto com universidades e institutos de pesquisa. Diversas pesquisas demonstram que a colaboração em atividades de desenvolvimento de produtos, realizadas em rede, diminuem significativamente os custos de desenvolvimento, os riscos do investimento e aumentam a probabilidade de sucesso dos produtos ao serem lançados comercialmente.

Abicalçados – Neste contexto de crise, qual a importância da aposta em produtos, modelos de negócios e processos inovadores para os negócios?
Peteffi –
Falando especificamente do setor calçadista, é fundamental que os empresários invistam em inovação para fugir da concorrência somente no preço. Somos cientes das dificuldades, do chamado Custo Brasil, mas também sabemos que é preciso proatividade no campo da inovação. Quando observamos o caso da China, há 10 anos o país asiático era outro, de baixo grau de tecnologia e produtividade. O fato é que eles tiveram a capacidade de absorver a tecnologia e aprender muito nesse período, com agregação novos processos modernos e investimentos pesados em inovação. Hoje, a China é o país do mundo que mais investe em automação, apresentando em média 68 robôs industriais para cada 10 mil empregados. O Brasil aparece na 39ª posição, com 10 robôs para 10 mil empregados, muito abaixo da média mundial e atrás de países como México e Argentina. Ainda nessa comparação, a China investia 0,64% do PIB em inovação em 1998, enquanto o Brasil investia 1%. Hoje, investimos 1,16% e a China 2,06%.  A China, por meio de grandes investimentos em tecnologia, caminha para ser a principal economia do mundo. E o Brasil?

Abicalçados – O Governo tem feito sua parte no incentivo da inovação?
Peteffi –
O Poder Público tem tomado algumas iniciativas. Em 2004, por meio da Lei de Inovação, foram lançados os Núcleos de Inovação e Transferência Tecnológica (NITTs), órgãos ligados às universidades e que têm por objetivo aproximar o conhecimento acadêmico do setor privado. Esse movimento é de grande importância para que as ideias de pesquisadores e alunos cheguem à sociedade e gerem impacto. Além disso, diversos programas foram lançados ao longo dos últimos anos, através de iniciativas de fomento,  apoio fiscal a empresas de eletrônicos que fazem pesquisa no País, lançamento da Embrapii, entre outros. No entanto, ainda estamos muito aquém da necessidade de investimentos em pesquisa, tanto no âmbito privado quanto público. Os países que não investirem em inovação e produtividade vão ficar para trás. Cada ano que o Brasil investir menos do que a média mundial em inovação, é um ano a mais de atraso a recuperar em relação aos outros.

Abicalçados – Qual o papel de entidade representativa, como a Abicalçados, para fomentar a cultura de inovação?
Peteffi –
Trata-se de um papel fundamental. É preciso criar a consciência de que quem não inovar, logo estará fora do jogo, não sobreviverá. Casos de empresas que não se adaptaram aos novos tempos, como Blockbuster e Kodak, estão aí para mostrar a importância de se acompanhar as evoluções tecnológicas. No setor de calçados, é preciso fomentar, acima de tudo, a cocriação – tanto entre empresas, como com universidades e institutos de pesquisa. O papel da Abicalçados é gerar essas conexões e, acima de tudo, criar a cultura de inovação. As empresas precisam parar de jogar essa responsabilidade para o gerente de produto ou de produção, como uma responsabilidade secundária, e criar um departamento próprio para trabalhar inovação e que faça isso transversalmente  envolvendo todas  as áreas.

Abicalçados – A pesquisa da Abicalçados revela também que do total investido em inovação pela cadeia coureiro-calçadista, 98,2% é próprio e apenas 1,8% de terceiros (agências de fomento). Como se explica isso?
Peteffi –
É um dado preocupante. Acredito que o maior problema esteja na falta de conhecimento das linhas de fomento à inovação disponíveis, seguido pela falta de projetos realmente inovadores. Muitas empresas pensam que o lançamento de uma coleção pode se encaixar como inovação, mas não é bem assim. Inovação precisa  agregar novos conhecimentos ou combiná-los de forma diferente, gerando uma solução diferente do que se encontra hoje no mercado. As empresas devem se aproximar mais das universidades e institutos de pesquisa, não somente para estarem mais bem informadas sobre as linhas disponíveis, mas também para elaboração de projetos. Em breve, a Abicalçados irá lançar um serviço de consultoria para desenvolvimento de projetos inovadores exclusivo para associados. A ideia é buscar subsídios em linhas de financiamento de agências de fomento.